“Daqui eu não saio”

Antes de começar este post, gostaria que você assistisse este vídeo. Foi gravado por Rafael Lage, em abril deste ano, na cidade de Belo Horizonte:

Na descrição do vídeo, seu autor publica:

“A intolerância ao diferente apoiada por uma campanha de higienização social em Belo Horizonte, assume ares de política repressiva de caráter criminal. À administração municipal, policia militar e mídia se associam na tarefa de criminalizar o artista de rua, artesãos nômades portadores de um patrimônio cultural brasileiro que deriva da resignificação do movimento hippie das décadas de 60 e 70. Uma cultura com mais de 40 anos. Mas quem criminaliza o estado?

Com expressões próprias na arte, na música e no estilo de vida, os artesãos são perseguidos, saqueados em seus bens pessoais e presos por desacato ao exercer a legitima desobediência civil”.

Estamos falando de Brasil: país católico, reacionário, cheio de desigualdades mas que, ao mesmo tempo, sempre se reafirmou ao mundo como um lugar onde as diferenças – sejam elas culturais, raciais ou religiosas – convivem harmonica a pacificamente. Slogan do governo Lula: “Brasil, um país de todos”. Aí você assiste a um vídeo desses…

Primeiro: o programa sensacionalista. “Hippies se drogam, usam maconha em praça pública”. EU RI. Tem uma praça aqui em São Paulo, que fica dentro de uma Universidade Católica inclusive, que é um dos maiores centros de concentração de maconheiros. Todos eles universitários, a maior parte brancos. Aí pode né? “Prenderam 33 hippies”. Legal. Vamos encher as cadeias de hippies para que as ruas fiquem cada vez mais livres para assassinos e estrupadores, valeu? “Essa nossa informação é moralista”. Claro, porque o que o Brasil precisa mesmo neste momento é de MORAL E BONS COSTUMES. Bem-vindos à Idade Média!

O ponto é este: ou você se enquadra, ou você está fodido, como disse a Miriam Allodi, minha companheira cotidiana de indignação. Genivaldo, o “hippie” que perde o controle ao ver seus pertences sendo imoralmente confiscados, pertences pessoais inclusive, explode em raiva: “Vocês só sabem fazer isso. Por que vocês não vão prender os verdadeiros bandidos?”. Alô Brasília, eu diria. Como questionar o comportamento de Genivaldo? Como criticar seu acesso de fúria? Caralho, estão levando suas coisas, velho! E você não pode fazer nada, porque se decidir fazer (como ele fez) você tá preso, meu nego. Essa é a polícia brasileira: polícia da opressão, polícia fascista. Veja aqui em São Paulo, por exemplo: nunca tantos negros tomaram batida policial, nunca tanta gente pobre foi humilhada pela polícia. Um conhecido meu de 17 anos tomou uma geral outro dia porque estava correndo pra pegar o ônibus. E a polícia viu. E, ôpa: negro correndo é ladrão, certo? Deram a maior prensa no garoto, que só estava atrasado pra chegar no cursinho pré-vestibular. Ele chorou, se revoltou mas… pô, é assim mesmo né, classe média? Preto é tudo ladrão. Gay é tudo safado. Mulher é tudo vagabunda. E a Zara pode continuar usando trabalho escravo porque as roupas deles são lindas e é isso aí, trabalho escravo aqui, na China, o que importa é meu iPad e minha blusa de malha de 150 paus.

Esses artesãos da Praça Sete de Abril, ao contrário do que diziam o apresentador do Minas Urgente e a jornalista Magali Simone, são um exemplo pra sociedade. Exemplo de preservação de uma cultura, de uma ideologia e acima de tudo: de resistência. Esses caras entendem tudo, eles conseguem perceber exatamente o que está acontecendo e por isso não se enquadram nesse modelo, não querem fazer parte desse status quo. A gente, aqui, desse lado obscuro, com essa visão torpe e embaçada do que é o mundo, nos fechamos no discurso do “é isso mesmo, sempre foi assim” e vamos replicando os velhos modelos de 50 anos, de moralismo babaca, de mentalidade tacanha, de preservação de valores idiotas.

A polícia prende o transeunte que fica indignado com o que vê. Dezenas de pessoas apreciando o circo da higienização social e SÓ UM CARA teve coragem de expressar sua indignação. Fico aqui pensando: e se naquela hora, naquele momento, rolasse uma insurreição popular? E se as pessoas todas se revoltassem com aquilo e fossem em defesa dos artesãos? Será que a polícia teria feito o que fez? E, sei lá… com tanta coisa acontecendo numa grande cidade como Belo Horizonte, não é (no mínimo) estranho que uma operação como essa ocorra com uma caralhada de fotógrafos e repórteres presentes? A polícia de Minas acha REALMENTE importante combater esse tipo de “crime”?

A polícia pode empurrar você, bater em você, xingar você. Isso é “autoridade”. Vai você, meu nego, dizer que eles são uns bostas inseguros que não conseguiram estudar e, pra se sentir mais macho, foram se tornar policiais. Vai falar isso.

Mas, como Genivaldo bem disse: “daqui eu não saio”. E tomara que não saia mesmo. A gente sabe muito bem quem tem de sair dessa história.

 

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