
Carlos Apolinário, advogado, líder da Assembleia de Deus e vereador da cidade de São Paulo pelo DEM, mandando você ficar bem quietinho aí
Na comunicação existe uma coisa chamada Análise de Discurso.
A Análise de Discurso consiste basicamente em estudar as construções ideológicas de um texto, ou seja, qual o seu contexto na sociedade e na história. Apesar de, a priori, ser uma matéria dos cursos de Comunicação Social, é possível perceber seu uso em diversas esferas profissionais e sociais. Líderes políticos e religiosos, por exemplo, sabem muito bem como trabalhar com isso, mesmo sem, às vezes, sequer terem colocado os pés em uma universidade.
Veja o dia do orgulho hétero, por exemplo. Foi proposto por Carlos Apolinário, do DEM, que além de vereador da cidade de São Paulo, aglutina às suas atividades as funções de advogado e líder da igreja Assembleia de Deus. Ou seja, como político, advogado e pastor sabe usar muito bem a Análise do Discurso para defender suas posições ortodoxas.
Para quem já estudou Análise de Discurso (que vou passar a chamar de AD a partir de agora), fica muito clara a incoerência da tal proposta. Primeiro, porque o vereador se apoia num preceito democrático para defendê-la. A velha história: ir e vir, liberdade de expressão e por aí vai. Esse não é, necessariamente o ponto. Mas voltaremos a isso logo mais. Segundo: sua ligação com uma entidade religiosa rege seus preceitos “democráticos” orientando-o para legislar não para uma causa comum a todos e sim, para um grupo específico que cobra atitudes que não são lá muito laicas. Dr. Rosinha, deputado federal pelo PT-PR disse recentemente em uma matéria que discutia a legalização do aborto:
“Sou cristão e sou contra o aborto. Mas não faço leis para mim”.
Chupa essa, Apolinário! E quem conhece AD saca logo a artimanha do vereador. Mas…
Brasil, meu Brasil brasileiro, terra de gente que lê um livro por ano, muito prazer. AD, essa coisa estranha, quem é que quer estudar isso na vida, né gente? Advogados adoram. E, veja que coincidência: Carlos Apolinário também é advogado! Políticos, padres, pastores, líderes sindicais, nem se fala! Todo mundo que quer estar por cima ou que precisa, necessariamente, defender um posicionamento vai lá estudar AD. E quem domina a prática, pode utilizá-la para o bem ou para o mal. Em um país onde as pessoas norteiam seus valores basicamente pelo que passa na novela, fica difícil de cobrar qualquer tipo de esclarecimento nesse sentido. E é por isso que, ao meu ver, o dia do orgulho hétero é muito mais perigoso por esse discurso embutido nele, essas “entrelinhas” que não são claras à população como um todo.
É chover no molhado discutir o ridículo dessa proposta. Até porque, qualquer pessoa MINIMAMENTE esclarecida é desfavorável a isso. Mas Carlos Apolinário não legisla para você, meu caro amigo que lê este blog. Ele não legisla para gente que acredita em Darwin, gente que vai assistir “Quebrando O Tabu” no cinema. Gente que é a favor da legalização da maconha e do aborto, gente que analisa o que vê e lê. NOT! Carlos Apolinário não legisla para quem conhece AD. Carlos Apolinário legisla para crentes e reacionários em geral. Gente que, como a maioria dos brasileiros e brasileiras, gosta de CQC, acha Rafinha Bastos do caralho, que ainda acredita que a verdade absoluta está na Bíblia e na novela. E sabe o que é pior? Essa gente é tão burra que, se fizesse uma AD da Bíblia iria perceber TAAAAAAAAAANTA COISA!!!
O discurso do dia do orgulho hétero contém muito mais do que a simples manifestação do orgulho daqueles que são maioria na sociedade e que sentem-se ameaçados pela mobilização gay. Esse discurso contém, além de uma grande estupidez ideológica, um princípio de totalitarismo que ninguém vai estampar em uma faixa ou num cartaz. Esse é um discurso que, se sancionado pelo prefeito Gilberto Kassab e legitimado pela sociedade, dará origem a um futuro muito obscuro para a nossa sociedade. Teremos aí praticamente a jurisprudência da volta do fascismo. Logo logo, teremos o dia do orgulho rico, para massacrar (mais uma vez) os pobres. O dia do orgulho branco, para massacrar (mais uma vez) os negros. Porque o dia do orgulho hétero vem, novamente, como uma tentativa de massacrar os gays. E isso não tem absolutamente nada a ver com democracia.
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Criei no Facebook um evento chamado “Dia da Vergonha Hétero”. Quem quiser participar, o link é este aqui.
Aproveite e veja estes dois vídeos de vlogueiros (um brasileiro e outro americano) comentando sobre essa proposta ridícula de Carlos Apolinário.
E pra entender um pouco mais de AD, alguns livros aqui.
Tags: assembléia de deus, carlos apolinário, democracia, orgulho hétero