Recentemente, meu namorado comentou comigo sobre um projeto chamado 3 por cento: trata-se de um piloto de uma série, que circula pela internet e que, atualmente, está em busca de alguma emissora que se interesse pela produção dos episódios da primeira temporada, já escrita. Hoje, acessei o canal deles no YouTube e assisti ao primeiro episódio. É ficção científica com um pouco de terror e suspense. Tudo acontece em futuro antiutópico, em uma sociedade dividida em dois lados. Aos vinte anos, todos possuem uma chance ÚNICA de participar de um processo seletivo onde apenas 3% poderá ingressar no “lado de lá”: um mundo hipoteticamente melhor, com oportunidades, onde todos são tratados de forma igual. Aos que não conseguem, o “lado de cá” para sempre.
Impossível assistir a esse primeiro episódio e não sentir calafrios. Primeiro, porque o extremismo da situação não me pareceu muito improvável para um futuro próximo. Depois, porque “o lado de lá” já existe e nos deparamos com ele quase todos os dias. Evgueny Zamiatin com “Nós”, George Orwell, com seu 1984 e Aldous Huxley, com Admirável Mundo Novo já nos davam a dica, na metade do século passado, sobre esse fatídico futuro que estava por vir.
O episódio de 3% – ao meu ver – nada mais é do que uma metáfora (ainda que um pouco mais dramática e atemorizante) da sociedade e do tempo em que vivemos. Não é preciso estar no futuro para se deparar com situações constrangedoras, que provocam dilemas éticos e embates morais. O “lado de lá” não é tão distante assim. Todos os meses concursos públicos conglomeram milhões de corações desesperados em um processo canibal por um emprego estável. Todos os anos, milhões de adolescentes são colocados à prova em vestibulares para universades públicas como se a garantia de uma vida melhor, de um futuro de sucesso, dependesse de uma sigla estampada em um diploma universitário. Todos os dias, milhares de empresas de seleção aglomeram em suas salas de espera jovens iludidos com a promessa de uma vida melhor caso ingressem em uma multinacional. Para isso, são colocadas à prova sua inteligência, seus valores e suas esperanças por meio de testes lógicos, interação com os outros candidatos e perguntas medíocres nas quais as respostas podem ser facilmente decoradas e disparadas de forma a causar a melhor impressão.
Eu mesma, coincidentemente também aos 20 anos, participei de um processo seletivo para uma vaga de ESTÁGIO onde me fizeram as seguintes perguntas:
1 – Se em uma gaveta existem apenas meias azuis e marrons, quantas meias preciso pegar, sem olhar, para ter um par perfeito?
2- Um homem mora no décimo segundo andar de um prédio. Ele apenas pega o elevador quando alguém o acompanha ou em dias de chuva. Por quê?
Não vou contar as respostas nem dizer se fui ou não selecionada porque meu objetivo não é assumir um tipo de “genialidade” ou de “mediocridade”. Vou dizer apenas que engoli a seco quando vi, no episódio, uma cena bastante parecida. Na verdade, usei esse exemplo do passado para justificar quão medíocre é esse sistema no qual vivemos hoje, onde as pessoas são segregadas e rotuladas de acordo com a sua adaptação a um mundo externo excludente, tacanho e injusto. E ainda assim, temos milhares, milhões de pessoas que querem fazer parte dele. Milhares ou milhões de jovens querem trabalhar em montadoras multinacionais que continuam entupindo nossas ruas com automóveis poluentes. Milhares ou milhões de pessoas querem continuar alimentando a máquina do funcionalismo público, batendo cartão diariamente e vivendo sua vidinha estável. Milhares ou milhões de adolescentes querem estar nesta ou naquela universidade, doa a quem doer, custe o que custar. E sempre é preciso agradecer, com suprema submissão, essa incrível oportunidade!
A história já nos ensinou muito sobre segregação. Tivemos uma Alemanha separada por um muro, também com um lado de cá e um lado de lá. Hoje temos Israel e a Palestina, também separadas. Mais um lado de lá e um de cá. Todas as fronteiras que separam a pobreza da riqueza, México e EUA, são “lados de lá” e “lados de cá”. O episódio nos indica, por inúmeras vezes, que estamos falando de um sistema totalitarista e autoritário. A tatuagem nos braços daqueles que pertencem ao “lado de lá” (marcados para sempre como indivíduos superiores), as formas geométricas nos quadros das salas de entrevista (onde nenhum desvio é permitido), as roupas e o jeito de caminhar dos candidatos no melhor estilo Another Brick In The Wall: sim, você é só mais um pedaço desse sistema e não há nada de especial nisso. Não sinta, apenas faça. Além disso, já é possível identificar diferentes arquétipos que nos dão o tom da sociedade moderna: temos a menina pura, educada e inocente que, claro, se estrepa logo de cara. Temos a garota esperta e charmosa. Temos o trapaceiro que tenta pela segunda vez ir para o lado de lá. E temos o pobre, paraplégico que não quer ter a mesma vida do pai e é cheio de dilemas e traumas. Temos um conglomerado de selecionadores crueis, frios, pseudo-sedutores. Alguma semelhança com a vida real?
3% tem um argumento ótimo, que chama a atenção e desperta a curiosidade porque fala exatamente do que vivemos hoje. Das exclusões diárias. Do desejo de sermos incluídos nos 3% de algum tipo de seleção. De sermos vencedores. A diferença da vida real para a história da ficção é que aqui, temos uma segunda, terceira, quarta chance. Temos todas as chances, podemos tentar quantas vezes quisermos. E o pior: podemos continuar tentando ser esses indivíduos adequados ao sistema, que fazem tudo girar do jeito que disseram que tinha de ser. Podemos ser esses 3% da nossa sociedade e ir para o lado de lá, onde tudo é melhor e mais fácil. Ou podemos ficar juntos, por aqui, com os outros 97% e tentar fazer alguma diferença.
Aposto em um revolução como desfecho da primeira temporada.
Tags: 1984, 3%, 3porcento, autoritarismo, totalitarismo

agosto 9, 2011 às 12:52 am |
Vi os vídeos pq vc postou lá no facebook. E adorei. Espero que eles consigam alguém interessado em apoiar o projeto. O foda é que não consigo pensar em nenhum canal em que isso se encaixaria na programação. Nenhum da globosat aceitaria. MTV ultimamente, só besteirol. Seria bacana se alguém apoiasse esses caras a continuar o projeto via web mesmo. Talvez um crowdfunding… Será que eles já se inscreveram no Catarse? bjs
agosto 9, 2011 às 1:00 am |
pelo que li no fb dos caras o crowdfounding vai ser a opção, caso ninguém se interesse mesmo. eu acho que uma série dessa cabe super bem na HBO ou no A&E. Mas… enquanto isso na Rede Globo: novela.
agosto 9, 2011 às 10:20 am |
1- 3 meias. Se há apenas duas cores, é impossível que não formem um par perfeito.
2- Ou o cara era muito baixo, ou era anão: quando alguém subia com ele, pedia para apertar o botão; já em dias de chuva, ele podia usar o guarda-chuva.
agosto 9, 2011 às 11:20 am |
Se 3% da televisão brasileria tivesse essa qualidade e sensibilidade…
agosto 10, 2011 às 12:28 pm |
Oi, Camila. Sou uma dos diretores do 3%. Adorei seu post, mesmo! Gostei das relações que vc fez e vc escreve muito bem.
Parabéns e obrigada
agosto 10, 2011 às 12:31 pm |
Oi Dani, obrigada! Também adorei o piloto da série e estou ansiosa para ver os próximos. Torcendo bastante por aqui para que vcs encontrem um canal interessado! Bjoca!