Vamos falar sobre ABORTO

"Liberdades não são dadas, elas são conquistadas".

Sempre fui a favor da legalização do aborto. Por conta disso, já ouvi de tudo a cada vez que manifestava a minha opinião a respeito: de discursos recheados de preconceitos, principalmente aqueles formulados pela igreja católica e replicados pelos seus seguidores até as opiniões mais reacionárias de gente que só faltou me chamar de assassina. Se já fiz um aborto? Não. E hoje, com meus trinta anos nas costas, não sei se faria, dependendo da situação, sim. De qualquer forma, nunca julguei nem apontei o dedo para aquelas que o fizeram. Ao contrário: sempre fiz questão de declarar publicamente meu apoio a essas mulheres, que certamente sofreram muito até que tomassem essa decisão. E sofrem porque nenhuma mulher quer tirar um filho, mas às vezes ela precisa fazer isso, cada uma por uma razão e que não cabe a ninguém dizer se estava certa ou errada. Legalizar o aborto tem a ver com direitos reprodutivos e, principalmente, com escolhas. Escolhas essas sobre as quais não temos o direito de interferir, tampouco a igreja ou quem quer que seja. Segundo dados do CFemea, o aborto clandestino é a causa de 602 internações POR DIA no Brasil e por causa de infecções, é a TERCEIRA causa de morte materna. E essas mulheres, ao contrário do que se pensa, não são apenas as adolescentes ou as pobres ou as putas. O perfil da mulher que faz aborto no Brasil é o da mulher negra, da branca, da parda, da amarela, da mulher de 15 a 50 anos, louras, morenas, altas, magras, ricas e pobres. Porque a mulher que faz aborto no Brasil não tem padrão, não está em uma “classe”. 1 em cada 7 mulheres no Brasil já fez aborto.

E foi pensando justamente em escrever algo que se propusesse a quebrar esse estereótipo que muitos ainda fazem questão de reafirmar, decidi procurar uma garota que eu conheço e que já fez um aborto para que ela pudesse contar a sua história, a sua versão dos fatos. Por decisão própria, decidi ocultar seu nome real. Aqui, vou chamá-la de Lavínia.

A Lavínia é uma menina de 24 anos. Mora com a mãe e com as irmãs. É funcionária pública em uma EMEI (Escola Municipal de Ensino Infantil) com crianças de 4 a 6 anos. Adora trabalhar na área e atualmente cursa o último semestre de Pedagogia. No futuro, também quer estudar História e Teologia. Quando perguntei a ela sobre sua religião, ela me contou não ter nenhuma, apesar de ter uma busca constante pela fé e de ter a necessidade de crer em algo: “Na semana passada li um livro chamado ‘Anjos e Demônios’, do Dan Brown, livro interessante, feito para vender mas gostei muito de uma parte em que ele diz que ‘a ciência é a língua de Deus’. Refletindo sobre isso, cheguei à conclusão de que Deus somos nós, que uma parte dele vive dentro da gente e que quando alguém te diz para ter fé e acreditar em Deus, é para termos fé e acreditarmos em nós mesmos”.

Como era seu relacionamento com seu namorado antes da gravidez?
Namorei o Fernando por quase sete anos. Tínhamos momentos tranquilos e outros turbulentos. Brigamos e rimos muito. E certamente nos amamos muito. Em um apanhado geral, foi muito bom namorar com ele. Mas me arrependo de ter namorado muito cedo, seria legal que eu o tivesse conhecido com uns 27 anos. Daí acho que daria certo.

Como você descobriu que estava grávida, como foi?
Fiquei grávida sete meses depois do fim do namoro. O Fernando estava namorando com outra pessoa mas a gente se encontrou e acabamos transando. Foi uma sucessão de erros que resultaram na gravidez. E olha que eu tomei a pílula do dia seguinte corretamente. Eu descobri que estava grávida mais ou menos um mês depois pois acreditei que a pílula não falharia. Mas eu estava ficando sempre enjoada, com muito sono e muito irritada. Resolvi fazer o teste da farmácia. Fiz na casa de uma amiga e deu positivo. Daí ela e eu entramos em desespero. Chorei muito a noite inteira, contei para mais duas amigas minhas que me acalmaram um pouco. Depois fui à casa do Fernando contar para ele, que aparentemente ficou tranquilo. Mas como eu estava exausta, nem fiquei conversando muito com ele. No dia seguinte ele já se mostrou desesperado, não acreditava no que havia acontecido, me falou muita merda aí eu fiquei puta e decidi que não queria nada dele, mandei ele para a putaqueopariu e fui embora. Decidida a ter o filho sozinha.

Vocês conversaram sobre a decisão a ser tomada ou foi apenas sua? Qual foi a sua principal motivação para fazer o aborto?
Passaram uns dias e eu contei para uma das minhas irmãs. Ela me apoiou a ter, disse que ajudaria e falou para eu contar para a minha mãe, que me perguntou simplesmente se eu queria ter ou não o bebê. Depois fui conversar com a mãe do Fernando. Ela estava super feliz, já tinha contado para a família inteira. Por fim, contei para a minha irmã mais velha, que já é casada e tem três filhos. Ela disse que eu não deveria ter, pois eu ainda tinha muita coisa para fazer na vida e que ainda não era hora. Durante tudo isso, eu conversava com o Fernando pelo celular e eram sempre brigas. Eu ficava cada vez mais com raiva dele. Daí, certo dia, minha irmã mais velha me trouxe dois comprimidos e disse que a decisão era minha.

E o que você fez?
Antes de dormir eu resolvi ligar para o Fernando. Ele estava muito ríspido comigo então, eu decidi que não queria passar o resto da minha vida brigando com ele. Daí eu resolvi abortar.

Como sua família lidou com essa decisão?
Minha família me apoiou em tudo, sempre.

Como foi depois do aborto?
Eu senti muita dor com o aborto e precisei ir ao hospital no dia seguinte. Minha irmã mais velha me levou. Minha outra irmã, mesmo não sendo favorável ao aborto, cuidou muito de mim. Precisei voltar ao hospital um mês depois para fazer curetagem. Todas quiseram estar comigo mas eu decidi que faria tudo sozinha. Minha irmã só assinou a internação e foi embora.

Você contou para os seus amigos?
Não contei para muitos amigos. Mas nessa hora, apenas um casal de amigos não me apoiou e eu entendo completamente. Não fiquei chateada quanto a isso, eles sempre me apoiaram muito para ter e eu sei que o aborto vai contra tudo o que eles acreditam. Quanto às minhas outras amigas que sabiam de tudo, algumas sempre disseram que eu não deveria ter e outras, que eu deveria. Mas todas sempre disseram que a decisão era minha e que me apoiariam sempre. E me apoiaram.

Você tomou um remédio, certo? Quais foram as sequelas?
Usei os remédios e depois foi necessário fazer a curetagem. Logo depois eu fui à uma ginecologista e pedi um exame geral para ver se estava tudo bem. Não tive sequelas. Os remédios que minha irmã me deu foram receitados pelo médico dela, já que ela teve problemas na gravidez e não pode mais engravidar, pois há risco de morte. Daí, ele receitou os tais remédios caso ela engravidasse novamente. Ela já sabia onde comprar.

Como você enxera o aborto hoje, dentro de um panorama social?
É muito complicado falar sobre aborto, sempre fui a favor da legalização, mesmo antes de fazer. Acredito que todas temos o direito de escolher se queremos ter um filho ou não, por isso existem tantas opções para nos prevenirmos. Porém, veja o meu caso: não usei camisinha, foi um erro, mas no dia seguinte eu tomei a pílula, que falhou. Daí, só me restaram duas escolhas: ter um filho como punição por uma transa sem camisinha ou o aborto. Só que, na minha história, existe uma irmã que sabia onde comprar o remédio. Para muitas mulheres, o que resta é jogar no Google e correr risco em clínicas clandestinas (gastando uma puta grana) ou ficar tomando chá de tudo quanto é coisa. Se fosse legalizado, nenhuma mulher correria tanto risco nem gastaria tanta grana. E ainda nem citei nada sobre o constrangimento. Se você recorre a um hospital depois de ter dado um jeito, os médicos sabem que você fez um aborto. Não importa a desculpa que você dê, ele te dá aquele “ótimo tratamento” de nem olhar na sua cara.

Se fosse legalizado, o perigo, a humilhação e a falta de apoio, seriam diferentes e o aborto não marginalizaria a imagem da mulher. Mas o aborto não deve ser utilizado como método contraceptivo, não porque o “papai do céu” fica triste, mas sim por botar em risco a vida da mulher, pô! Eu senti muita dor, tive de fazer a cirurgia de curetagem. Tomei raqui (tipo de anestesia), foi foda. Ainda que eu tenho convênio médico para fazer tudo isso. Quem não tem, simplesmente aborta e nem vai ver se ainda tem resquícios de placenta. Depois que saiu um monte de “coisas” sozinhas o médico ainda tirou um monte e mesmo assim eu tive de fazer a curetagem um mês depois. Por esse motivo que o aborto não pode ser banalizado também.

O que você falaria para meninas, mulheres, enfim… pessoas que estão passando pela fase da decisão?
Quando eu estava nessa fase eu busquei ajuda por meio da internet, mas só encontrei relatos de arrependimento. Isso te deixa louca. Então, eu diria para não buscarem mensagem nenhuma, a decisão é unicamente sua e das possibilidades de colocar essa decisão em prática (infelizmente é assim que funciona). A sua realidade é diferente da minha, assim como é diferente da fulana. Mas, acredite: se decidir por fazer, não é porque fizemos um aborto que nos transformamos em uma pessoa má. No meu caso, tenho certeza que serei uma ótima mãe, a melhor do mundo, na hora certa. Por enquanto, vou realizando a minha vida em prol deste momento e de tantos outros que virão.

Você se arrependeu?
É inevitável pensar como seria a minha vida se eu tivesse seguido com a gravidez. Provavelmente teria um filho lindo, provavelmente teria voltado com o Fernando, estaríamos formando uma família maravilhosa. Até aí, tudo lindo. Mas provavelmente eu teria saído da minha casa e ido morar com ele e com a família dele, teria parado de fazer faculdade, não teria viajado, conhecido tanta gente e nem teria planos para o meu futuro. E com isso, provavelmente, seria uma mulher frustrada que, inconscientemente, descontaria no meu marido e filhos a ausência de vida própria. Egoísmo da minha parte? Cada um julga como quiser.

O “Deus” que existe dentro de mim diz que não.

* * *

A Lavínia é o maior exemplo de que a mulher que faz aborto no Brasil é como eu, como você. Muitas tem acesso à informação e à contraceptivos. A diferença é que, por algum motivo elas ficaram grávidas e simplesmente não quiseram ter aquele filho. Elas fizeram uma escolha. E o pai? Onde fica? Não apenas neste, mas em muitos relatos é possível encontrar a figura masculina simplesmente isentando-se da sua responsabilidade e abandonando a mulher. O homem está sempre livre, sempre ileso e praticamente ninguém se lembra dele na hora de apontar o dedo às mulheres que abortaram.

Chega de marginalização. Somos livres.

Para quem quiser obter mais informações sobre legalização do aborto e direitos reprodutivos, visite o site do CFemea.

Saiba porque o aborto deve ser legalizado:

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