Nasci em uma família católica. MUITO católica. Cresci temendo e rezando todas as noites, onde pedia desculpas a Deus. Fui batizada, fiz primeira comunhão e, graças à adolescência rebelde, recusei-me a fazer crisma (que é a confirmação do batismo). Nessa época eu já tinha, minimamente, noção do que a Igreja Católica representava e pulei fora. Queria ter feito isso antes, na época da primeira eucaristia mas quem disse que criança de 9, 10 anos pode ter opinião própria, né?
Boa parte da minha recusa veio quando comecei a ler esses filósofos “transgressores”, “subversivos”, esse bando de ateus aí que fica enfiando caraminhola na cabeça dos jovens. Fui lá ler os caras. E o mundo foi se abrindo, se abrindo e um dia eu me dei conta de que a vida é mais que Deus, é mais que pecado, é mais que pedir perdão por pecados que nem são pecados. Na verdade, eu comecei a perceber que toda essa gente da Igreja Católica era muito da tapada, burra, tacanha, às vezes até medíocre. Acho que só conheci UM padre com o qual simpatizei: era um barbudão da paróquia lá perto da casa da minha mãe, em Santo André. Enquanto as beatas ficavam reclamando dos mendigos que dormiam à porta da igreja, ele ia lá, dava comida, banho e roupa pros caras. Conversava com eles, ouvia o que os caras tinham a dizer e nessa ele arrebanhou alguns, mas prefiro acreditar que o objetivo primeiro não era esse. Ele tinha consciência social sobre muitas coisas e chegou até a falar sobre esse comportamento das carolas em um dos sermões da missa de domingo. Achei do caralho, na época eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Mas não me recordo de casos parecidos como esse. O que via e tenho visto é sempre uma mentalidade sacal da igreja católica e de seus partidários, em todas as esferas da sociedade.
Recentemente, li as declarações da Myrian Rios, “missionária católica”, falando sobre homossexualidade e pedofilia, confundindo alhos com bugalhos, um discurso temeroso! Para justificar sua contrariedade à PEC-23, ela se enrola em uma fala absolutamente ignorante e rasa. O vídeo no qual ela aparece defendendo sua posição (este aqui abaixo) ainda vem “coroado” com uma justificativa tão estúpida quanto o conteúdo das imagens, reforçando aquilo que eu mais temo: falas como essa influenciam e formam opinião de um monte de gente. Tem força e reforçam estereótipos, preconceito e me arrisco até a dizer que estimulam à violação dos direitos de muita gente.
Apesar das desculpas que deu publicamente, ainda acho a Myrian Rios um desserviço à sociedade. Certamente eleita por católicos tão burros e desinformados como ela. E, honestamente, acho que suas desculpas são piores que sua fala. Se uma deputada não consegue ser articulada o suficiente para expressar suas opiniões sem falar bobagem, sugiro que ela vá ler algumas coisas, estudar outras e depois aparecer em público para falar algo. Talvez ela se esqueça (ou nem conheça) uma coisa que, na comunicação, é chamada de “Análise do Discurso”. Se bem que, provavelmente as pessoas que votaram nela ou que a apoiem sequer saibam o que é isso porque são demasiadamente limitadas para entender algo tão “complexo”.
Mas você, pessoa legal que lê este blog, deve saber o que é Análise do Discurso e, se não sabe, pode saber agora. Para tanto, sugiro este ótimo texto da Eliane Brum, que saiu na Revista Época e, de antemão, agradeço à Jacque Lisboa, que foi quem publicou o link desse texto no Facebook.
E aos católicos que corroboram com Myrian Rios, Padre Marcelo Rossi, Chalita e afins, meus sinceros pêsames por tamanha estupidez.
Tags: homossexualidade, myrian rios, pec-23, pedofilia
