Saiu ontem no caderno Ilustrada da Folha de SP uma entrevista intitulada como “A internet me deixou BURRO DEMAIS!” com Mark Bauerlein, professor de inglês na Universidade de Emory, que lançou recentemente o livro The Dumbest Generation [ou "A Geração Estúpida", em uma tradução livre]. Nele, o autor coloca na mesa algumas questões que envolvem, basicamente, o déficit cognitivo que a internet provocou e provoca nas gerações nascidas nessas últimas três décadas.
Apesar da polêmica gerada pelo professor e de alguns conceitos [na minha opinião] rasos, a discussão que ele coloca em cena é muito pertinente, em especial pra nós, gente do século passado, mais especificamente essa nascida nas tais três últimas décadas da qual ele fala [e na qual eu me incluo].
Houve uma época em que, no Brasil, demonizar a TV era a bola da vez: disseram que o rádio acabaria, que o cinema ia virar purpurina e que o povo nunca mais ia pegar num livro na vida. Hoje, a TV continua, junto com o rádio e com o cinema, cada um na sua e muito bem, obrigado. Quanto aos livros, me arrisco a afirmar que o povo lê atualmente tanto quanto lia antes. E se lê menos, não é SÓ por causa da TV. Enfim, todo mundo começa a pregar o mal eterno de um determinado meio de comunicação e se esquece de que o pulo-do-gato não está no MEIO e sim, na MEDIAÇÃO, já dizia Martín-Barbero, escritor eu adoro um monte. Barbero diz mais ou menos que, o problema não é a TV, e sim, o uso que se faz dela e a forma como você recebe o conteúdo que vem dali. Se não houver uma análise crítica da parte do receptor, não adianta: pode ser TV, rádio, internet, jornal, rótulo de margarina. Aquele meio perde seu poder democratizador e torna-se mero propagador de produto inútil. A comunicação acontece no RECEPTOR.
E o tal professor Mark Bauerlein fala algo muito parecido com isso na entrevista: o problema não está na internet, mas no uso que vem se fazendo dela. Ou seja: você mora em uma região de risco e tem a possibilidade de fazer um blog para contar sobre a situação do lugar onde vive e mobilizar pessoas para uma transformação ou pode simplesmente navegar no Orkut e bater papo no MSN. E aqui, digo eu: ou fazer todas essas coisas, por que não?
De qualquer forma, quando Arnaldo Antunes escreveu a letra de “Televisão”, lá em meados dos anos 80 onde ainda estávamos um tanto distantes da internet e de toda essa revolução digital, mal sabia ele que essa seria a música premonitória de toda uma geração que estava por vir, mas que não ficaria, necessariamente, “burra demais” só por causa disso.
E eu corroboro com opinião de um dos meus professores, Richard Romancini [e para quem eu mandei a entrevista], que disse: “Ademais, acredito que – no fim das contas – a língua do poder ainda é a língua dos ‘cultos’. Portanto, os grupos que querem mudar a direção cultural, precisam dominá-la” e recomendo a todos que leiam este artigo aqui escrito por ele no blog Mídias na Educação.
Tags: comunicação, internet, mídias
Maio 29, 2008 às 2:43 pm |
concordo em gênero, número e grau com o seu texto. é assim mesmo. toda vez que surge um novo meio, alguém diz que é ele o responsável pelo emburrecimento do povo. começou com o platão maldizendo a escrita, porque nos deixaria desmemoriados.
acho que, na verdade, o buraco é mais embaixo. muitas coisas são responsáveis pelo emburrecimento do povo. enfim, dá pra pensar num viés marxista, de dominação; ou botar a culpa na indústria cultural, como a escola de frankfurt; ou ver pelo lado do texto (muito bacana) do link que vc pôs: as pessoas vêem o não-saber como uma forma de resistência, mas, para subverter a ordem féladaputa de hoje, é preciso saber, pensar e saber pensar. Justamente pra saber onde é que estão tentando te alienar. Pelo menos eu penso assim.
Achei bacana o link porque outro dia fiquei cho-ca-da com uma comunidade no orkut chamada “tiopês: a revolução” e a meninada criando regras “gramaticais” para a coisa, chamando quem não sabe de bocó. Antes de ler o texto, pensei: revolução de quê? Para quê? A troco de quê? Agora, talvez faça um pouco de sentido. Mas não deixa de ser uma tentativa de reprodução em micro-escala do próprio esquema da língua culta, que exclui quem não a conhece.
Enfim….
Maio 30, 2008 às 1:12 am |
Pra combinar com o teu “corroboro”, eu comungo das opinões aqui expostas. Hehe…
E, apesar do texto da Ilustrada ser mesmo bom, continuo achando que o teu blog tá melhor que o site da FSP.
Meu, ótima reflexão!
Beijoca