Fernando Meirelles, O Hipócrita

By Endora

“Para o futuro próximo, até que as ambições são bem pé-no-chão. A primeira é produzir com emissão de carbono zerada. ‘Ensaio Sobre A Cegueira’ é o primeiro projeto assim. A O2 contratou a Ipesa, que faz o cálculo e o plantio das árvores para compensar as 960 toneladas de carbono lançadas pelo filme na atmosfera. ‘Isso me dá satisfação, ou ao menos aplaca a culpa’, diz Meirelles“¹.

1. Fábrica de Cinema. Revista da Folha. Edição 818. P.32. 25 mai 2008.

Vinha lendo a matéria sobre a O2 na revista, achando muito interessante essa coisa dos funcionários entrarem e não saírem, sociedade sem brigas e coisa e tal. Mas lá no finalzinho da matéria vem essa pérola e logo de quem? Do dono do negócio.

Honestamente, acho muito bom que as pessoas estejam mais conscientes das implicações de suas ações sobre o meio ambiente, que exista a preocupação em reciclar, em não jogar óleo de cozinha no ralo da pia, em não queimar pneu, em reaproveitar as coisas. Acho ótimo. Aqui em casa muito disso já era feito desde sempre, mais por necessidade do que por uma questão ambiental [até porque, antes a moda "verde" não existia]. Hoje minha mãe olha pro sabão que a Vó Júlia faz com o óleo de cozinha que levamos pra ela e diz: “somos ambientalmente responsáveis” num tom de ironia que eu adoro. Vou dizer o porquê.

Declarações como essa do Fernando Meirelles só me fazem sentir raiva e nojo de todos esses ecochatos que passaram a vida inteira poluindo, jogando lixo na rua, fazendo o escambau e que agora, em função de toda uma moda politicamente correta e “verde”, vendem seus projetos com essa etiqueta ambiental escrota que nada mais é do que uma, como o próprio Meirelles disse, aplacação de culpa. É uma coisa meio FHC saca? “Esqueçam que poluí. Agora sou ‘verde’ “.

Ser ambientalmente correto vai muito além do fato de contratar uma empresa para calcular o “quanto de carbono foi emitido” e plantar árvores para “equilibrar” isso. É absurdo e descabido. E não vem com essa de “ah, pelo menos eles estão plantando árvores”. NÃO! Esse é o argumento do preguiçoso, daquele que aceita sem, ao menos, refletir por 5 minutos sobre o que acabou de ler.

E nesse momento, a única coisa que me vem à mente para explicitar parte dessa minha perplexidade contra a declaração de Fernando Meirelles é uma frase genial do Tim Maia, na qual dizia: “Eu odeio a hipocrisia. Porque a hipocrisia é a mentira da mentira”.

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2 Respostas para “Fernando Meirelles, O Hipócrita”

  1. marjorierodrigues Disse:

    Mais hipocrisia que isso só o al gore e seu live earth, que jogou milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.

    PS – e as milhares de revistas com edição verde? eu ia fazer um post sobre isso porque, aparentemente, o verde é o novo preto. todo mundo mudando o logo pra verde, como se isso fosse uau, o cúmulo do inédito. mas, oi?, do que revista é feita mesmo? Pra mim, edição verde é, pelo menos, com papel reciclado. Afinal, já que é pra mentir, bóra se esforçar um pouquinho…

  2. Luciana Lopes Disse:

    Bom tarde!
    Seu post levanta uma discussão muito importante, uma reflexão que toda a sociedade deve fazer e que os especialistas na questão ambiental há muito tempo discutem: existe um impasse entre o modo de produção e consumo que nossas sociedades adotaram e a quantidade limitada dos recursos naturais no tempo dessa produção.
    Como proposta para esse impasse, há diversas correntes de pensamento, que resumirei como: dos convervacionistas mais aguerridos que combatem todo desenvolvimento aos ecocapitalistas, onde todo tipo de produção é válida, desde que compensemos nosso dano.
    O IPESA e outras milhares de entidades do país auxiliam na construção do caminho do meio: em pensar e experimentar novas tecnologias que tenham como finalidade a qualidade de vida do homem.
    Quando nos foi solicitado a compensação das emissões do fime “Blindness” da O2 filmes o IPESA havia iniciado um projeto junto a comunidade de IBIUNA- SP uma das maiores produtoras de hortaliças orgânicas do estado e que abastece a grande São Paulo. Apesar desse histórico, os agricultores locais enfrentam uma série de desafios para continuar a atividade. Através da compesação das emissões realizada pelo filme será possível trabalhar conjuntamente com eles novas técnicas de plantio e caminhos para a comercialização. Serão plantadas mais de 6.000 árvores através de sistemas agro-florestais, onde o agricultor pode consorciar a recuperação da floresta e o cultivo de alimentos.
    O projeto quando apresentado foi prontamente aceito, pois mais atende as necessidades locais de melhoria ambiental e social.
    Não há leis que obriguem empresas e empreendimentos a compensarem sua produção de carbono ou que regulem as formas dessa compensação. Cada um que queira fazer, por qualquer motivo, o faz de acordo com a sua visão (ou cegueira) de ambientalismo:
    Concordamos que muitas dessas “visões” são Hipócritas, como bem citado no seu texto, mas esse não é o caso em questão: as compensações do filme serão realizadas de forma a promover a melhoria da qualidade de vida dos agricultores de IBIUNA. Sua visita ao nosso projeto será muito bem vinda.

    Atenciosamente

    Luciana
    Coordenadora de Projetos do IPESA
    http://www.ipesa.org.br

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