“Daqui eu não saio”

agosto 18, 2011

Antes de começar este post, gostaria que você assistisse este vídeo. Foi gravado por Rafael Lage, em abril deste ano, na cidade de Belo Horizonte:

Na descrição do vídeo, seu autor publica:

“A intolerância ao diferente apoiada por uma campanha de higienização social em Belo Horizonte, assume ares de política repressiva de caráter criminal. À administração municipal, policia militar e mídia se associam na tarefa de criminalizar o artista de rua, artesãos nômades portadores de um patrimônio cultural brasileiro que deriva da resignificação do movimento hippie das décadas de 60 e 70. Uma cultura com mais de 40 anos. Mas quem criminaliza o estado?

Com expressões próprias na arte, na música e no estilo de vida, os artesãos são perseguidos, saqueados em seus bens pessoais e presos por desacato ao exercer a legitima desobediência civil”.

Estamos falando de Brasil: país católico, reacionário, cheio de desigualdades mas que, ao mesmo tempo, sempre se reafirmou ao mundo como um lugar onde as diferenças – sejam elas culturais, raciais ou religiosas – convivem harmonica a pacificamente. Slogan do governo Lula: “Brasil, um país de todos”. Aí você assiste a um vídeo desses…

Primeiro: o programa sensacionalista. “Hippies se drogam, usam maconha em praça pública”. EU RI. Tem uma praça aqui em São Paulo, que fica dentro de uma Universidade Católica inclusive, que é um dos maiores centros de concentração de maconheiros. Todos eles universitários, a maior parte brancos. Aí pode né? “Prenderam 33 hippies”. Legal. Vamos encher as cadeias de hippies para que as ruas fiquem cada vez mais livres para assassinos e estrupadores, valeu? “Essa nossa informação é moralista”. Claro, porque o que o Brasil precisa mesmo neste momento é de MORAL E BONS COSTUMES. Bem-vindos à Idade Média!

O ponto é este: ou você se enquadra, ou você está fodido, como disse a Miriam Allodi, minha companheira cotidiana de indignação. Genivaldo, o “hippie” que perde o controle ao ver seus pertences sendo imoralmente confiscados, pertences pessoais inclusive, explode em raiva: “Vocês só sabem fazer isso. Por que vocês não vão prender os verdadeiros bandidos?”. Alô Brasília, eu diria. Como questionar o comportamento de Genivaldo? Como criticar seu acesso de fúria? Caralho, estão levando suas coisas, velho! E você não pode fazer nada, porque se decidir fazer (como ele fez) você tá preso, meu nego. Essa é a polícia brasileira: polícia da opressão, polícia fascista. Veja aqui em São Paulo, por exemplo: nunca tantos negros tomaram batida policial, nunca tanta gente pobre foi humilhada pela polícia. Um conhecido meu de 17 anos tomou uma geral outro dia porque estava correndo pra pegar o ônibus. E a polícia viu. E, ôpa: negro correndo é ladrão, certo? Deram a maior prensa no garoto, que só estava atrasado pra chegar no cursinho pré-vestibular. Ele chorou, se revoltou mas… pô, é assim mesmo né, classe média? Preto é tudo ladrão. Gay é tudo safado. Mulher é tudo vagabunda. E a Zara pode continuar usando trabalho escravo porque as roupas deles são lindas e é isso aí, trabalho escravo aqui, na China, o que importa é meu iPad e minha blusa de malha de 150 paus.

Esses artesãos da Praça Sete de Abril, ao contrário do que diziam o apresentador do Minas Urgente e a jornalista Magali Simone, são um exemplo pra sociedade. Exemplo de preservação de uma cultura, de uma ideologia e acima de tudo: de resistência. Esses caras entendem tudo, eles conseguem perceber exatamente o que está acontecendo e por isso não se enquadram nesse modelo, não querem fazer parte desse status quo. A gente, aqui, desse lado obscuro, com essa visão torpe e embaçada do que é o mundo, nos fechamos no discurso do “é isso mesmo, sempre foi assim” e vamos replicando os velhos modelos de 50 anos, de moralismo babaca, de mentalidade tacanha, de preservação de valores idiotas.

A polícia prende o transeunte que fica indignado com o que vê. Dezenas de pessoas apreciando o circo da higienização social e SÓ UM CARA teve coragem de expressar sua indignação. Fico aqui pensando: e se naquela hora, naquele momento, rolasse uma insurreição popular? E se as pessoas todas se revoltassem com aquilo e fossem em defesa dos artesãos? Será que a polícia teria feito o que fez? E, sei lá… com tanta coisa acontecendo numa grande cidade como Belo Horizonte, não é (no mínimo) estranho que uma operação como essa ocorra com uma caralhada de fotógrafos e repórteres presentes? A polícia de Minas acha REALMENTE importante combater esse tipo de “crime”?

A polícia pode empurrar você, bater em você, xingar você. Isso é “autoridade”. Vai você, meu nego, dizer que eles são uns bostas inseguros que não conseguiram estudar e, pra se sentir mais macho, foram se tornar policiais. Vai falar isso.

Mas, como Genivaldo bem disse: “daqui eu não saio”. E tomara que não saia mesmo. A gente sabe muito bem quem tem de sair dessa história.

 

Orgulho hétero: um discurso perigoso

agosto 11, 2011

Carlos Apolinário, advogado, líder da Assembleia de Deus e vereador da cidade de São Paulo pelo DEM, mandando você ficar bem quietinho aí

Na comunicação existe uma coisa chamada Análise de Discurso.

A Análise de Discurso consiste basicamente em estudar as construções ideológicas de um texto, ou seja, qual o seu contexto na sociedade e na história. Apesar de, a priori, ser uma matéria dos cursos de Comunicação Social, é possível perceber seu uso em diversas esferas profissionais e sociais. Líderes políticos e religiosos, por exemplo, sabem muito bem como trabalhar com isso, mesmo sem, às vezes, sequer terem colocado os pés em uma universidade.

Veja o dia do orgulho hétero, por exemplo. Foi proposto por Carlos Apolinário, do DEM, que além de vereador da cidade de São Paulo, aglutina às suas atividades as funções de advogado e líder da igreja Assembleia de Deus. Ou seja, como político, advogado e pastor sabe usar muito bem a Análise do Discurso para defender suas posições ortodoxas.

Para quem já estudou Análise de Discurso (que vou passar a chamar de AD a partir de agora), fica muito clara a incoerência da tal proposta. Primeiro, porque o vereador se apoia num preceito democrático para defendê-la. A velha história: ir e vir, liberdade de expressão e por aí vai. Esse não é, necessariamente o ponto. Mas voltaremos a isso logo mais. Segundo: sua ligação com uma entidade religiosa rege seus preceitos “democráticos” orientando-o para legislar não para uma causa comum a todos e sim, para um grupo específico que cobra atitudes que não são lá muito laicas. Dr. Rosinha, deputado federal pelo PT-PR disse recentemente em uma matéria que discutia a legalização do aborto:

“Sou cristão e sou contra o aborto. Mas não faço leis para mim”.

Chupa essa, Apolinário! E quem conhece AD saca logo a artimanha do vereador. Mas…

Brasil, meu Brasil brasileiro, terra de gente que lê um livro por ano, muito prazer. AD, essa coisa estranha, quem é que quer estudar isso na vida, né gente? Advogados adoram. E, veja que coincidência: Carlos Apolinário também é advogado! Políticos, padres, pastores, líderes sindicais, nem se fala! Todo mundo que quer estar por cima ou que precisa, necessariamente, defender um posicionamento vai lá estudar AD. E quem domina a prática, pode utilizá-la para o bem ou para o mal. Em um país onde as pessoas norteiam seus valores basicamente pelo que passa na novela, fica difícil de cobrar qualquer tipo de esclarecimento nesse sentido. E é por isso que, ao meu ver, o dia do orgulho hétero é muito mais perigoso por esse discurso embutido nele, essas “entrelinhas” que não são claras à população como um todo.

É chover no molhado discutir o ridículo dessa proposta. Até porque, qualquer pessoa MINIMAMENTE esclarecida é desfavorável a isso. Mas Carlos Apolinário não legisla para você, meu caro amigo que lê este blog. Ele não legisla para gente que acredita em Darwin, gente que vai assistir “Quebrando O Tabu” no cinema. Gente que é a favor da legalização da maconha e do aborto, gente que analisa o que vê e lê. NOT! Carlos Apolinário não legisla para quem conhece AD. Carlos Apolinário legisla para crentes e reacionários em geral. Gente que, como a maioria dos brasileiros e brasileiras, gosta de CQC, acha Rafinha Bastos do caralho, que ainda acredita que a verdade absoluta está na Bíblia e na novela. E sabe o que é pior? Essa gente é tão burra que, se fizesse uma AD da Bíblia iria perceber TAAAAAAAAAANTA COISA!!!

O discurso do dia do orgulho hétero contém muito mais do que a simples manifestação do orgulho daqueles que são maioria na sociedade e que sentem-se ameaçados pela mobilização gay. Esse discurso contém, além de uma grande estupidez ideológica, um princípio de totalitarismo que ninguém vai estampar em uma faixa ou num cartaz. Esse é um discurso que, se sancionado pelo prefeito Gilberto Kassab e legitimado pela sociedade, dará origem a um futuro muito obscuro para a nossa sociedade. Teremos aí praticamente a jurisprudência da volta do fascismo. Logo logo, teremos o dia do orgulho rico, para massacrar (mais uma vez) os pobres. O dia do orgulho branco, para massacrar (mais uma vez) os negros. Porque o dia do orgulho hétero vem, novamente, como uma tentativa de massacrar os gays. E isso não tem absolutamente nada a ver com democracia.

***

Criei no Facebook um evento chamado “Dia da Vergonha Hétero”. Quem quiser participar, o link é este aqui.

Aproveite e veja estes dois vídeos de vlogueiros (um brasileiro e outro americano) comentando sobre essa proposta ridícula de Carlos Apolinário.

E pra entender um pouco mais de AD, alguns livros aqui.

O lado de lá

agosto 9, 2011

Recentemente, meu namorado comentou comigo sobre um projeto chamado 3 por cento: trata-se de um piloto de uma série, que circula pela internet e que, atualmente, está em busca de alguma emissora que se interesse pela produção dos episódios da primeira temporada, já escrita. Hoje, acessei o canal deles no YouTube e assisti ao primeiro episódio. É ficção científica com um pouco de terror e suspense. Tudo acontece em futuro antiutópico, em uma sociedade dividida em dois lados. Aos vinte anos, todos possuem uma chance ÚNICA de participar de um processo seletivo onde apenas 3% poderá ingressar no “lado de lá”: um mundo hipoteticamente melhor, com oportunidades, onde todos são tratados de forma igual. Aos que não conseguem, o “lado de cá” para sempre.

Impossível assistir a esse primeiro episódio e não sentir calafrios. Primeiro, porque o extremismo da situação não me pareceu muito improvável para um futuro próximo. Depois, porque “o lado de lá” já existe e nos deparamos com ele quase todos os dias.  Evgueny Zamiatin com “Nós”, George Orwell, com seu 1984 e Aldous Huxley, com Admirável Mundo Novo já nos davam a dica, na metade do século passado, sobre esse fatídico futuro que estava por vir.

O episódio de 3% – ao meu ver – nada mais é do que uma metáfora (ainda que um pouco mais dramática e atemorizante) da sociedade e do tempo em que vivemos. Não é preciso estar no futuro para se deparar com situações constrangedoras, que provocam dilemas éticos e embates morais. O “lado de lá” não é tão distante assim. Todos os meses concursos públicos conglomeram milhões de corações desesperados em um processo canibal por um emprego estável. Todos os anos, milhões de adolescentes são colocados à prova em vestibulares para universades públicas como se a garantia de uma vida melhor, de um futuro de sucesso, dependesse de uma sigla estampada em um diploma universitário. Todos os dias, milhares de empresas de seleção aglomeram em suas salas de espera jovens iludidos com a promessa de uma vida melhor caso ingressem em uma multinacional. Para isso, são colocadas à prova sua inteligência, seus valores e suas esperanças por meio de testes lógicos, interação com os outros candidatos e perguntas medíocres nas quais as respostas podem ser facilmente decoradas e disparadas de forma a causar a melhor impressão.

Eu mesma, coincidentemente também aos 20 anos, participei de um processo seletivo para uma vaga de ESTÁGIO onde me fizeram as seguintes perguntas:

1 – Se em uma gaveta existem apenas meias azuis e marrons, quantas meias preciso pegar, sem olhar, para ter um par perfeito?

2- Um homem mora no décimo segundo andar de um prédio. Ele apenas pega o elevador quando alguém o acompanha ou em dias de chuva. Por quê?

Não vou contar as respostas nem dizer se fui ou não selecionada porque meu objetivo não é assumir um tipo de “genialidade” ou de “mediocridade”. Vou dizer apenas que engoli a seco quando vi, no episódio, uma cena bastante parecida. Na verdade, usei esse exemplo do passado para justificar quão medíocre é esse sistema no qual vivemos hoje, onde as pessoas são segregadas e rotuladas de acordo com a sua adaptação a um mundo externo excludente, tacanho e injusto. E ainda assim, temos milhares, milhões de pessoas que querem fazer parte dele. Milhares ou milhões de jovens querem trabalhar em montadoras multinacionais que continuam entupindo nossas ruas com automóveis poluentes. Milhares ou milhões de pessoas querem continuar alimentando a máquina do funcionalismo público, batendo cartão diariamente e vivendo sua vidinha estável. Milhares ou milhões de adolescentes querem estar nesta ou naquela universidade, doa a quem doer, custe o que custar. E sempre é preciso agradecer, com suprema submissão, essa incrível oportunidade!

A história já nos ensinou muito sobre segregação. Tivemos uma Alemanha separada por um muro, também com um lado de cá e um lado de lá. Hoje temos Israel e a Palestina, também separadas. Mais um lado de lá e um de cá. Todas as fronteiras que separam a pobreza da riqueza, México e EUA, são “lados de lá” e “lados de cá”. O episódio nos indica, por inúmeras vezes, que estamos falando de um sistema totalitarista e autoritário. A tatuagem nos braços daqueles que pertencem ao “lado de lá” (marcados para sempre como indivíduos superiores), as formas geométricas nos quadros das salas de entrevista (onde nenhum desvio é permitido), as roupas e o jeito de caminhar dos candidatos no melhor estilo Another Brick In The Wall: sim, você é só mais um pedaço desse sistema e não há nada de especial nisso. Não sinta, apenas faça. Além disso, já é possível identificar diferentes arquétipos que nos dão o tom da sociedade moderna: temos a menina pura, educada e inocente que, claro, se estrepa logo de cara. Temos a garota esperta e charmosa. Temos o trapaceiro que tenta pela segunda vez ir para o lado de lá. E temos o pobre, paraplégico que não quer ter a mesma vida do pai e é cheio de dilemas e traumas. Temos um conglomerado de selecionadores crueis, frios, pseudo-sedutores. Alguma semelhança com a vida real?

3% tem um argumento ótimo, que chama a atenção e desperta a curiosidade porque fala exatamente do que vivemos hoje. Das exclusões diárias. Do desejo de sermos incluídos nos 3% de algum tipo de seleção. De sermos vencedores. A diferença da vida real para a história da ficção é que aqui, temos uma segunda, terceira, quarta chance. Temos todas as chances, podemos tentar quantas vezes quisermos. E o pior: podemos continuar tentando ser esses indivíduos adequados ao sistema, que fazem tudo girar do jeito que disseram que tinha de ser. Podemos ser esses 3% da nossa sociedade e ir para o lado de lá, onde tudo é melhor e mais fácil. Ou podemos ficar juntos, por aqui, com os outros 97% e tentar fazer alguma diferença.

Aposto em um revolução como desfecho da primeira temporada.

Vamos falar sobre ABORTO

julho 25, 2011

"Liberdades não são dadas, elas são conquistadas".

Sempre fui a favor da legalização do aborto. Por conta disso, já ouvi de tudo a cada vez que manifestava a minha opinião a respeito: de discursos recheados de preconceitos, principalmente aqueles formulados pela igreja católica e replicados pelos seus seguidores até as opiniões mais reacionárias de gente que só faltou me chamar de assassina. Se já fiz um aborto? Não. E hoje, com meus trinta anos nas costas, não sei se faria, dependendo da situação, sim. De qualquer forma, nunca julguei nem apontei o dedo para aquelas que o fizeram. Ao contrário: sempre fiz questão de declarar publicamente meu apoio a essas mulheres, que certamente sofreram muito até que tomassem essa decisão. E sofrem porque nenhuma mulher quer tirar um filho, mas às vezes ela precisa fazer isso, cada uma por uma razão e que não cabe a ninguém dizer se estava certa ou errada. Legalizar o aborto tem a ver com direitos reprodutivos e, principalmente, com escolhas. Escolhas essas sobre as quais não temos o direito de interferir, tampouco a igreja ou quem quer que seja. Segundo dados do CFemea, o aborto clandestino é a causa de 602 internações POR DIA no Brasil e por causa de infecções, é a TERCEIRA causa de morte materna. E essas mulheres, ao contrário do que se pensa, não são apenas as adolescentes ou as pobres ou as putas. O perfil da mulher que faz aborto no Brasil é o da mulher negra, da branca, da parda, da amarela, da mulher de 15 a 50 anos, louras, morenas, altas, magras, ricas e pobres. Porque a mulher que faz aborto no Brasil não tem padrão, não está em uma “classe”. 1 em cada 7 mulheres no Brasil já fez aborto.

E foi pensando justamente em escrever algo que se propusesse a quebrar esse estereótipo que muitos ainda fazem questão de reafirmar, decidi procurar uma garota que eu conheço e que já fez um aborto para que ela pudesse contar a sua história, a sua versão dos fatos. Por decisão própria, decidi ocultar seu nome real. Aqui, vou chamá-la de Lavínia.

A Lavínia é uma menina de 24 anos. Mora com a mãe e com as irmãs. É funcionária pública em uma EMEI (Escola Municipal de Ensino Infantil) com crianças de 4 a 6 anos. Adora trabalhar na área e atualmente cursa o último semestre de Pedagogia. No futuro, também quer estudar História e Teologia. Quando perguntei a ela sobre sua religião, ela me contou não ter nenhuma, apesar de ter uma busca constante pela fé e de ter a necessidade de crer em algo: “Na semana passada li um livro chamado ‘Anjos e Demônios’, do Dan Brown, livro interessante, feito para vender mas gostei muito de uma parte em que ele diz que ‘a ciência é a língua de Deus’. Refletindo sobre isso, cheguei à conclusão de que Deus somos nós, que uma parte dele vive dentro da gente e que quando alguém te diz para ter fé e acreditar em Deus, é para termos fé e acreditarmos em nós mesmos”.

Como era seu relacionamento com seu namorado antes da gravidez?
Namorei o Fernando por quase sete anos. Tínhamos momentos tranquilos e outros turbulentos. Brigamos e rimos muito. E certamente nos amamos muito. Em um apanhado geral, foi muito bom namorar com ele. Mas me arrependo de ter namorado muito cedo, seria legal que eu o tivesse conhecido com uns 27 anos. Daí acho que daria certo.

Como você descobriu que estava grávida, como foi?
Fiquei grávida sete meses depois do fim do namoro. O Fernando estava namorando com outra pessoa mas a gente se encontrou e acabamos transando. Foi uma sucessão de erros que resultaram na gravidez. E olha que eu tomei a pílula do dia seguinte corretamente. Eu descobri que estava grávida mais ou menos um mês depois pois acreditei que a pílula não falharia. Mas eu estava ficando sempre enjoada, com muito sono e muito irritada. Resolvi fazer o teste da farmácia. Fiz na casa de uma amiga e deu positivo. Daí ela e eu entramos em desespero. Chorei muito a noite inteira, contei para mais duas amigas minhas que me acalmaram um pouco. Depois fui à casa do Fernando contar para ele, que aparentemente ficou tranquilo. Mas como eu estava exausta, nem fiquei conversando muito com ele. No dia seguinte ele já se mostrou desesperado, não acreditava no que havia acontecido, me falou muita merda aí eu fiquei puta e decidi que não queria nada dele, mandei ele para a putaqueopariu e fui embora. Decidida a ter o filho sozinha.

Vocês conversaram sobre a decisão a ser tomada ou foi apenas sua? Qual foi a sua principal motivação para fazer o aborto?
Passaram uns dias e eu contei para uma das minhas irmãs. Ela me apoiou a ter, disse que ajudaria e falou para eu contar para a minha mãe, que me perguntou simplesmente se eu queria ter ou não o bebê. Depois fui conversar com a mãe do Fernando. Ela estava super feliz, já tinha contado para a família inteira. Por fim, contei para a minha irmã mais velha, que já é casada e tem três filhos. Ela disse que eu não deveria ter, pois eu ainda tinha muita coisa para fazer na vida e que ainda não era hora. Durante tudo isso, eu conversava com o Fernando pelo celular e eram sempre brigas. Eu ficava cada vez mais com raiva dele. Daí, certo dia, minha irmã mais velha me trouxe dois comprimidos e disse que a decisão era minha.

E o que você fez?
Antes de dormir eu resolvi ligar para o Fernando. Ele estava muito ríspido comigo então, eu decidi que não queria passar o resto da minha vida brigando com ele. Daí eu resolvi abortar.

Como sua família lidou com essa decisão?
Minha família me apoiou em tudo, sempre.

Como foi depois do aborto?
Eu senti muita dor com o aborto e precisei ir ao hospital no dia seguinte. Minha irmã mais velha me levou. Minha outra irmã, mesmo não sendo favorável ao aborto, cuidou muito de mim. Precisei voltar ao hospital um mês depois para fazer curetagem. Todas quiseram estar comigo mas eu decidi que faria tudo sozinha. Minha irmã só assinou a internação e foi embora.

Você contou para os seus amigos?
Não contei para muitos amigos. Mas nessa hora, apenas um casal de amigos não me apoiou e eu entendo completamente. Não fiquei chateada quanto a isso, eles sempre me apoiaram muito para ter e eu sei que o aborto vai contra tudo o que eles acreditam. Quanto às minhas outras amigas que sabiam de tudo, algumas sempre disseram que eu não deveria ter e outras, que eu deveria. Mas todas sempre disseram que a decisão era minha e que me apoiariam sempre. E me apoiaram.

Você tomou um remédio, certo? Quais foram as sequelas?
Usei os remédios e depois foi necessário fazer a curetagem. Logo depois eu fui à uma ginecologista e pedi um exame geral para ver se estava tudo bem. Não tive sequelas. Os remédios que minha irmã me deu foram receitados pelo médico dela, já que ela teve problemas na gravidez e não pode mais engravidar, pois há risco de morte. Daí, ele receitou os tais remédios caso ela engravidasse novamente. Ela já sabia onde comprar.

Como você enxera o aborto hoje, dentro de um panorama social?
É muito complicado falar sobre aborto, sempre fui a favor da legalização, mesmo antes de fazer. Acredito que todas temos o direito de escolher se queremos ter um filho ou não, por isso existem tantas opções para nos prevenirmos. Porém, veja o meu caso: não usei camisinha, foi um erro, mas no dia seguinte eu tomei a pílula, que falhou. Daí, só me restaram duas escolhas: ter um filho como punição por uma transa sem camisinha ou o aborto. Só que, na minha história, existe uma irmã que sabia onde comprar o remédio. Para muitas mulheres, o que resta é jogar no Google e correr risco em clínicas clandestinas (gastando uma puta grana) ou ficar tomando chá de tudo quanto é coisa. Se fosse legalizado, nenhuma mulher correria tanto risco nem gastaria tanta grana. E ainda nem citei nada sobre o constrangimento. Se você recorre a um hospital depois de ter dado um jeito, os médicos sabem que você fez um aborto. Não importa a desculpa que você dê, ele te dá aquele “ótimo tratamento” de nem olhar na sua cara.

Se fosse legalizado, o perigo, a humilhação e a falta de apoio, seriam diferentes e o aborto não marginalizaria a imagem da mulher. Mas o aborto não deve ser utilizado como método contraceptivo, não porque o “papai do céu” fica triste, mas sim por botar em risco a vida da mulher, pô! Eu senti muita dor, tive de fazer a cirurgia de curetagem. Tomei raqui (tipo de anestesia), foi foda. Ainda que eu tenho convênio médico para fazer tudo isso. Quem não tem, simplesmente aborta e nem vai ver se ainda tem resquícios de placenta. Depois que saiu um monte de “coisas” sozinhas o médico ainda tirou um monte e mesmo assim eu tive de fazer a curetagem um mês depois. Por esse motivo que o aborto não pode ser banalizado também.

O que você falaria para meninas, mulheres, enfim… pessoas que estão passando pela fase da decisão?
Quando eu estava nessa fase eu busquei ajuda por meio da internet, mas só encontrei relatos de arrependimento. Isso te deixa louca. Então, eu diria para não buscarem mensagem nenhuma, a decisão é unicamente sua e das possibilidades de colocar essa decisão em prática (infelizmente é assim que funciona). A sua realidade é diferente da minha, assim como é diferente da fulana. Mas, acredite: se decidir por fazer, não é porque fizemos um aborto que nos transformamos em uma pessoa má. No meu caso, tenho certeza que serei uma ótima mãe, a melhor do mundo, na hora certa. Por enquanto, vou realizando a minha vida em prol deste momento e de tantos outros que virão.

Você se arrependeu?
É inevitável pensar como seria a minha vida se eu tivesse seguido com a gravidez. Provavelmente teria um filho lindo, provavelmente teria voltado com o Fernando, estaríamos formando uma família maravilhosa. Até aí, tudo lindo. Mas provavelmente eu teria saído da minha casa e ido morar com ele e com a família dele, teria parado de fazer faculdade, não teria viajado, conhecido tanta gente e nem teria planos para o meu futuro. E com isso, provavelmente, seria uma mulher frustrada que, inconscientemente, descontaria no meu marido e filhos a ausência de vida própria. Egoísmo da minha parte? Cada um julga como quiser.

O “Deus” que existe dentro de mim diz que não.

* * *

A Lavínia é o maior exemplo de que a mulher que faz aborto no Brasil é como eu, como você. Muitas tem acesso à informação e à contraceptivos. A diferença é que, por algum motivo elas ficaram grávidas e simplesmente não quiseram ter aquele filho. Elas fizeram uma escolha. E o pai? Onde fica? Não apenas neste, mas em muitos relatos é possível encontrar a figura masculina simplesmente isentando-se da sua responsabilidade e abandonando a mulher. O homem está sempre livre, sempre ileso e praticamente ninguém se lembra dele na hora de apontar o dedo às mulheres que abortaram.

Chega de marginalização. Somos livres.

Para quem quiser obter mais informações sobre legalização do aborto e direitos reprodutivos, visite o site do CFemea.

Saiba porque o aborto deve ser legalizado:

Amy e sua escolha

julho 23, 2011

É. Amy fez o que muita gente esperava. Morreu, jovem, como muitos dos grandes gênios da minha geração e da geração passada. Lá se foi mais uma. Assim como Janis, Jim, Jimi, Brian e Kurt. Entrou para o seleto clube que vai além daquele com jovens músicos que morreram aos 27. Entrou para o grupo dos geniais, dos que não temeram levar a vida ao extremo, assim como seus próprios limites. Viveu com a genialidade que vivem aqueles que estão no mundo errado. Esse é o tipo de gente que nasce uma em um milhão. São aqueles que não foram feitos para essa realidade, essa sociedade, esse jeito de ser e de viver. Eles estão muito além, vão muito além, não são páreo para nós. Por isso são imortais.

Amy não precisou morrer para se tornar uma lenda. Mas, certamente agora, vai ser isso e mais um pouco. Moralistas e babacas vão repetir que ela era uma “bêbada e drogada, um péssimo exemplo para juventude”. Eu acredito que a Amy, ao contrário, foi um dos maiores exemplos para a “juventude” bundamole, mostrando que a vida é horrível, que as coisas dão errado e que a relidade dói e faz chorar. Que é preciso ter coragem para passar por tudo isso, mas se não der, não deu. É preciso viver plenamente, do jeito que for melhor para você. E se morrer cedo for o preço, que assim seja.

Arrisco-me a dizer que Amy sabia que morreria jovem. E fez a escolha que considerou melhor para ela.

Amy, linda, em Back to Black.

Mull Of Kintyre

julho 12, 2011

Meu pai, o cara do violão, o segundo da direita para a esquerda

Meu pai é um cara de 55 anos que não teve muita sorte na vida. Nasceu com uma doença congênita na visão. Passou uma infância terrível, de preconceitos, imcompreensões, bullings, com o mundo inteiro dizendo que ele era um incapaz. Um inválido. Nunca teve um bom emprego. Criou ao meu irmão e eu com a grana de uma aposentadoria por invalidez e com um salário de porteiro. Até que ele caiu doente e não pode mais trabalhar. Depois de curado, restaram as amarguras do passado. Ele ainda não conseguiu superar muitas delas.

Meu pai me ensinou a ler quando eu tinha 4 anos. Cantou muitas músicas comigo, penteou meus cabelos, cozinhou meu almoço e me comprou muitos chocolates brancos na mercearia da esquina. Meu pai me levou à escola pela primeira vez. Meu pai foi meu primeiro desenho no pré.

Meu pai adorava Sidney Sheldon. Li muitos livros do Sidney Sheldon por causa dele. Adorava ler aquelas baboseiras, lia escondido, até que ele descobriu, me deu uma bronca (eu era uma criança!) e ele resolveu me dar “O Conde de Monte Cristo” e “A Casa do Pai Thomas”, mais apropriados para a minha idade, segundo ele.

Meu pai gosta da Igreja Católica. Meu pai defende o papa e tem dezenas de opiniões reaças. Ele vai à missa todos os domingos e me obrigou a ir em muitas, inclusive. Ele tem uma cruz gigante pendurada no peito, e eu acho isso bem cafona. Meu pai acredita em Deus, em Jesus, em pecado e não quer ser cremado. Quer ser sepultado, pois acredita na ressurreição.

Mas o meu pai era cabeludo. Ele curtia muito rock and roll. Ele toca violão. E me mostrou esta música, no último sábado:

Eu sou muito do meu pai. Chego a achar que sou exatamente como ele, só que numa versão rebelde, feminina e ateia.

E foi só neste último sábado que eu entendi tudo. Eu demorei trinta anos para entender que meu pai é meu maior heroi.

Periguete Missionária

julho 7, 2011

Myrian Rios, atual missionária da Igreja Católica, ex-periguete nos anos 80

Nasci em uma família católica. MUITO católica. Cresci temendo e rezando todas as noites, onde pedia desculpas a Deus. Fui batizada, fiz primeira comunhão e, graças à adolescência rebelde, recusei-me a fazer crisma (que é a confirmação do batismo). Nessa época eu já tinha, minimamente, noção do que a Igreja Católica representava e pulei fora. Queria ter feito isso antes, na época da primeira eucaristia mas quem disse que criança de 9, 10 anos pode ter opinião própria, né?

Boa parte da minha recusa veio quando comecei a ler esses filósofos “transgressores”, “subversivos”, esse bando de ateus aí que fica enfiando caraminhola na cabeça dos jovens. Fui lá ler os caras. E o mundo foi se abrindo, se abrindo e um dia eu me dei conta de que a vida é mais que Deus, é mais que pecado, é mais que pedir perdão por pecados que nem são pecados. Na verdade, eu comecei a perceber que toda essa gente da Igreja Católica era muito da tapada, burra, tacanha, às vezes até medíocre. Acho que só conheci UM padre com o qual simpatizei: era um barbudão da paróquia lá perto da casa da minha mãe, em Santo André. Enquanto as beatas ficavam reclamando dos mendigos que dormiam à porta da igreja, ele ia lá, dava comida, banho e roupa pros caras. Conversava com eles, ouvia o que os caras tinham a dizer e nessa ele arrebanhou alguns, mas prefiro acreditar que o objetivo primeiro não era esse. Ele tinha consciência social sobre muitas coisas e chegou até a falar sobre esse comportamento das carolas em um dos sermões da missa de domingo. Achei do caralho, na época eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Mas não me recordo de casos parecidos como esse. O que via e tenho visto é sempre uma mentalidade sacal da igreja católica e de seus partidários, em todas as esferas da sociedade.

Recentemente, li as declarações da Myrian Rios, “missionária católica”, falando sobre homossexualidade e pedofilia, confundindo alhos com bugalhos, um discurso temeroso! Para justificar sua contrariedade à PEC-23, ela se enrola em uma fala absolutamente ignorante e rasa. O vídeo no qual ela aparece defendendo sua posição (este aqui abaixo) ainda vem “coroado” com uma justificativa tão estúpida quanto o conteúdo das imagens, reforçando aquilo que eu mais temo: falas como essa influenciam e formam opinião de um monte de gente. Tem força e reforçam estereótipos, preconceito e me arrisco até a dizer que estimulam à violação dos direitos de muita gente.

Apesar das desculpas que deu publicamente, ainda acho a Myrian Rios um desserviço à sociedade. Certamente eleita por católicos tão burros e desinformados como ela. E, honestamente, acho que suas desculpas são piores que sua fala. Se uma deputada não consegue ser articulada o suficiente para expressar suas opiniões sem falar bobagem, sugiro que ela vá ler algumas coisas, estudar outras e depois aparecer em público para falar algo. Talvez ela se esqueça (ou nem conheça) uma coisa que, na comunicação, é chamada de “Análise do Discurso”. Se bem que, provavelmente as pessoas que votaram nela ou que a apoiem sequer saibam o que é isso porque são demasiadamente limitadas para entender algo tão “complexo”.

Mas você, pessoa legal que lê este blog, deve saber o que é Análise do Discurso e, se não sabe, pode saber agora. Para tanto, sugiro este ótimo texto da Eliane Brum, que saiu na Revista Época e, de antemão, agradeço à Jacque Lisboa, que foi quem publicou o link desse texto no Facebook.

E aos católicos que corroboram com Myrian Rios, Padre Marcelo Rossi, Chalita e afins, meus sinceros pêsames por tamanha estupidez.

Mais sobre a Marcha das Vadias

junho 30, 2011

Kauara Rodrigues, do CFemea, na Marcha das Vadias de Brasília Foto: Jamila Tavares (G1)

No dia 18 de junho rolou mais Marcha das Vadias, desta vez, em várias cidades brasileiras – entre elas, Brasília. Lá, cerca de MIL PESSOAS participaram, um número bastante expressivo se considerarmos, por exemplo, que em SP tivemos cerca 600 pessoas participando. Como eu acho que esse assunto não pode morrer nunca, resolvi esperar o calor da manifestação passar para divulgar um papo que eu tive com a Kauara Rodrigues, do CFemea, exatamente sobre isso.

Na sua opinião, quais as mudanças a curto e longo prazo que uma marcha como essa provoca no comportamento das pessoas?

Kauara Rodrigues: Mudar uma cultura machista com valores patriarcais é um desafio e tanto! Essa com certeza seria a mudança de mais longo prazo. Mas creio que o processo da marcha das vadias traz alguns aspectos capazes de gerar mudanças importantes no comportamento das pessoas, pois traz momentos de reflexão e coesão, traz as pessoas para os movimentos sociais e para ações de incidência política.

Como era a presença masculina que foi à Marcha das Vadias de BSB?

KR: A presença dos homens na Marcha de BSB me surpreendeu. Participaram em número significativo, a maioria carregando cartazes com frases muito criativas e postura favorável à causa. Interessante também foi a participação de famílias inteiras com crianças, que trouxe uma diversidade e riqueza pra marcha. Foi muito emocionante e bonito ver tantas pessoas juntas indignadas e protestando com criatividade contra o machismo e a violência que as mulheres sofrem diariamente. Sem dúvidas, foi um dia histórico para a cidade.

Como transformar uma ação como essa em resultados efetivos de combate à violação dos direitos da mulher?

KR: Esse é um desafio que os movimentos feministas e de mulheres têm lutado pra consolidar. Especificamente no caso do DF, várias participantes da marcha das vadias estão construindo um documento/carta para o governador do DF com demandas relacionadas aos direitos das mulheres, em especial às políticas de segurança pública (com ações efetivas para lidar com a insegurança vivida pelas mulheres). O Forum de Mulheres do DF tem investido no diálogo com o poder público local, em ações de incidência no ciclo orçamentário para a garantia de políticas públicas e recursos para ações de enfrentamento à violência contra as mulheres.Esses são alguns exemplos que demonstram que essa luta da marcha não se resume ao histórico dia 18 de junho. Haverá muitos outros desdobramentos, pois nossa luta contra o machismo é diária.

Por acontecer em Brasília, vc acredita que o peso da marcha foi diferente? Havia a presença de políticos ligados (ou não) ao movimento?

KR: De fato, o peso da marcha das vadias foi diferente considerando a realidade do DF, em que é bem difícil mobilizar pessoas para a ação coletiva. Em geral, as mobilizações que acontecem são voltadas para pautas de caráter nacional e as pessoas vem de fora de Brasília. Surpreendemente a marcha de Brasília não contou com a participação de políticos, nem partidos políticos, a exceção da Deputada Federal Erika Kokay (PT/DF) que estava presente. Isso foi interessante, a organização e mobilização para a marcha teve um caráter horizontal, que contou muito com a força das redes sociais, que estão fazendo as pessoas se apropriarem de determinadas causas, sem que isso passe necessariamente por grupos institucionalizados. Isso é uma grande mudança, que merece uma reflexão mais detida.

A Kauara tem 30 anos, é cientista política e assessora técnica e parlamentar do CFemea. Valeu, Kauara!

Deus, esse grande machista

junho 16, 2011

Ah cara! SÉRIO QUE EU TÔ GRÁVIDA???

Eu não acredito em Deus. Não acredito e confesso que sempre pressuponho um quê de ignorância em quem acredita. Mas supondo que Deus exista, gostaria aqui de provocar algumas reflexões envolvendo a presença feminina na história cristã e hebraica, com três mulheres que, na minha opinião, são as mais emblemáticas e importantes, bem como o machismo presente na figura divina, constantemente promulgada pela igreja:

Lilith

Resumindo, Lilith, que foi a primeira mulher do mundo (sim, ela veio antes de Eva), foi expulsa do Paraíso porque não quis ficar embaixo de Adão na hora do sexo. Ela se considerava igual a ele, feita do mesmo pó, produto da mesma linha e decidiu não se submeter ao controle e ao domínio da presença masculina. Note-se que ela não se incomodava em ficar por baixo, o problema era a não-possibilidade de ficar por cima. Como ela chamou o nome de Deus em vão porque ficou puta da vida, foi escurraçada do Paraíso e ainda teve de aguentar um monte de anjos puxa-saco indo atrás dela para matar seus filhos e transformá-la em uma demônia. Enquanto isso, Adão ficava lá tristinho, querendo uma companheira, enchendo o saco de Deus como um belo dum filho mimado. Seria Lilith a primeira mulher rebelde e feminista da história? Por que ser amaldiçoada se ela estava apenas buscando sua liberdade? Se Deus é bom e justo como dizem, porque a pobre mulher foi castigada? Por que seus filhos, que nada tinham a ver com isso, foram mortos? Alguma semelhança com os tempos atuais em que vivemos?

Eva

Veio depois da Lilith. Deus não queria mais problemas com essa história de ter feito homem e mulher com a mesma farinha. Resolveu fazer a próxima mulher da costela de Adão, pra já começar submetendo-a à presença masculina, como se sua existência dependesse única e exclusivamente daquele homem. Eva veio como era pra ser: boa, bonita e submissa. O problema é que Eva era esperta e sacou logo muito bem o que a esperava. Deu o golpe baixo em Adão, fez ele comer a maçã sem que a serpente tivesse algo a ver com isso. A serpente era só a melhor amiga, a confidente. Imagino Eva reclamando: “Ele não faz nada, Serpente, nada! Só me explora! Estamos aqui, morando nesse Paraíso xexelento, nem um anel, nada de flores, nem um sofá novo ele me compra… pedi pra ele mudar de emprego, mas ele não quis. Então vou botar ele pra comer essa tal maçã. Vou mesmo. Vai ser demitido? Vai. Mas pelo menos entra uma grana e a gente pode dar entrada num casebre, né colega?” E ele comeu, foram expulsos do Paraíso, tiveram um filho-problema e viveram (in)felizes para sempre, como todas as pessoas normais. Minhas questões a respeito: seria esse já o primeiro indício de que os homens preferem as submissas porém dissimuladas porque estas parecem mais fáceis de serem controladas? Já nessa época os homens eram burros o suficiente para não compreender que a emancipação feminina é dolorosa porém sincera? E Deus, o que fez a respeito de Adão nessa história toda?

Maria

Essa, na minha opinião, foi a que mais se estrepou. Levava lá a sua vida de menina, curtindo cabras e bezerros, fazendo pãozinho no fim da tarde e sonhando com um marido bonzinho que a sustentasse. Aí vem Deus e fode com tudo. Como sempre, manda lá um de seus puxa-sacos pra dizer pra pobre coitada que tem UM FILHO NA BARRIGA DELA! Um filho que ela não esperava e que ela não queria. Pra piorar, ela ainda era virgem, mas ninguém ia acreditar nisso e certamente seu sonho de um bom marido foi pro beleleu. Tá, tem o José e tals, mas alguém me diz onde ele estava na hora da crucificação do filho “deles”? Ele foi o pai que assumiu e deu a pensão. Só. Maria se ferrou a vida inteira: viveu o preconceito por uma trepada que nunca rolou e por um filho pelo qual não havia pedido. Ainda teve que segurar a onda de ver o cara morrendo, 33 anos depois. Virou santa. Mas… será que, se pudesse escolher, ela optaria por tornar-se santa à base de tanto sofrimento e às custas de um filho assassinado cruelmente? Será que ela teria optado por continuar virgem? Será que ela não tinha o direito de ter um filho na hora que bem entendesse? Em uma época onde o mundo era infinitamente mais cruel com as mulheres do que é hoje, não teria Maria o direito de dar a sua (mesmo que única) trepada?

Ficam aí minhas questões para reflexão.

Carta Manifesto das Vadias de Brasília

junho 16, 2011

Marcha das Vadias em SP

Em contato com a Kauara Ferreira, do CFemea (Centro Feminista de Estudos e Assessoria) recebi dela esta carta aberta, que publico abaixo e na íntegra, sobre a Marcha das Vadias que acontecerá neste sábado, em Brasília.

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Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília – Por que marchamos?

Em Brasília, marchamos porque apenas nos primeiros cinco meses desse ano, foram 283 casos registrados de mulheres estupradas, uma média de duas mulheres estupradas por dia, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Distrito Federal, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres que são violentadas ao longo desses caminhos.

No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e estupradas por vários homens ao mesmo tempo durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!

Marcha das Vadias BSB


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